segunda-feira, 12 de maio de 2008

Alves Reis - Uma Burla Quase Perfeita

O nome de Artur Virgílio Alves Reis ficará para sempre ligado à história do papel fiduciário em Portugal. Foi este cidadão português, oriundo de uma família de classe média lisboeta onde se destacava o Almirante Reis, que ajudou a implantar a República, que em 1924 começou a elaborar um plano de falsificação de notas conhecido por Angola e Metrópole. Através de documentação falsificada, Alves Reis e os seus cúmplices conseguiram convencer a firma que habitualmente fabricava as notas para o Banco de Portugal, a Waterlow & Sons, de Inglaterra, a fornecer-lhes notas estampadas com a mesma chapa. Tratava-se de uma nota de 500 escudos, chapa 2, com figura de Vasco da Gama.

O arrojado plano do maior burlão português foi preparado com muita mestria e minúcia. Alves Reis redigiu um contrato fictício entre o Governo de Angola e ele próprio. Nesse documento firmava-se uma operação financeira no valor de um milhão de libras. Numa das cláusulas afirmava-se que o Governo de Angola concedia a Alves Reis a autorização para estampar papel-moeda no valor de cem mil contos com curso legal em Portugal e em Angola. Um outro contrato, também falsificado, estabelecido entre o Banco de Portugal e o Governo de Angola completou o "puzzle", pois assim legitimava-se a ideia de que o Governo português iria socorrer as debilitadas finanças angolanas com circulação fiduciária.


Alves Reis enviou então uma carta à Waterlow & Sons, com papel timbrado do Banco de Portugal e assinatura falsificada de um dos seus directores. Ficou assim acordado que seriam impressas 200 mil notas de 500 escudos, segundo o espécime fornecido pela Marang, empresa também envolvida na fraude.

Em Fevereiro de 1925, através da fronteira de Vilar Formoso, entrou, ao abrigo da imunidade diplomática, a primeira remessa. Passaram com este estatuto pois faziam parte da bagagem de José Bandeira, ministro de Portugal na Holanda e uma das peças essenciais do plano de Reis. A burla estava consumada e seria mais tarde comentada nos circuitos financeiros internacionais devido principalmente aos métodos utilizados.

A sorte de Alves Reis acabou em Dezembro de 1925 quando foram descobertas, no Porto, grupos de duas notas daquela chapa com a mesma numeração. O aparecimento de duplicados veio confirmar aquilo que as autoridades monetárias há muito suspeitavam, mas mesmo depois desta descoberta só foi possível distinguir as notas verdadeiras das falsificadas através de sinais ocultos que eram apenas do conhecimento da referida firma inglesa. Acusado, entre outras coisas, de conspiração e de falsificação de notas, contratos, correspondência e assinaturas, o burlão passou 20 anos na prisão (1925-1945) e o seu processo jurídico era constituído por 75 volumes e 32 apêndices.

Nenhum comentário: